XXXIX - Pretérito do Infinitivo

Coexistir, construir, inflamar-se
Assustar, estranhar, entranhar-se
Perceber, convergir, ler amor
Contemplar, iludir, sentir dor
Duvidar, atirar, expandir-se
Insistir, perecer, destruir-se
Abrigar, remover, condoer
Evocar, suspirar, aprender
Resolver, perdoar, humilhar-se
Engolir, aceitar, lamentar-se
Assentir, permitir, entender
Amar, re-amar e perder.

XXXVIII


Sentada em frente ao mar
Devaneios sobre monogamia
A cerveja gelada no copo
E as palavras voando soltas
Nas asas de uma menina.

Sentada fumando um cigarro
Metafísico e metafórico
Tragando o desejo de voar
Como as palavras;
Nas asas de uma menina.

O sol se pondo no mar
Delírios sobre sinceridade
O copo vazio na mesa
E o desejo voando solto
Nas asas de uma menina.

XXXVII

Preciso de uma paz que não existe.
Preciso afastar-me dos olhos negros
Que me espreitam através do espelho
Quebrado.

A face da morte me deleita
E o fio da incerteza me conduz
Através da navalha da noite.

Os sorrisos indecifráveis que me estragam
As cores de uma rotina contraproducente

Enervam-me com tais doces mentiras
E afogam meu tempo e meus lábios
Com o gosto metálico de um coração
Enferrujado.

XXXVI

Se eu soubesse o que fazer
Com tanta e tamanha indecisão
Ainda assim nada faria
Pois o querer ainda me governa
E minha alma, sempre anárquica
Não foge nem cala; luta.

Se eu pudesse decidir
Que fazer com meus devaneios
Ainda assim nada teria
Pois o que é ideia não morre
E em solo infértil de medo
Tampouco nasce.

XXXV - Pra Você Dar o Nome

Às vezes eu penso em você,
Em suas mãos tão pálidas
Em sua boca cálida,
Penso em você dormindo
A boca entreaberta,
Os sonhos me sorrindo.
Lembro das nossas canções
Lembro dos nossos carinhos,
Penso na juventude, tão distante
Penso em nossos beijos delirantes!
Às vezes você é tão forte!
Me acusa, me abraça, me morde,
Às vezes, eu penso em você;
Lembro do amor inventado
Penso em encontros marcados
Às vezes, você é tão longe!
Seus passos de mim se escondem
No desenrolar dos séculos
No desempenho dos anos,
Penso em você, em seus fracos enganos
Penso em ouvir seu choro
Penso em chorar suas perdas
Às vezes, você me confunde
Penso em nosso passado,quieto, apagado
Talvez seu inferno diário,
Talvez meu destino, calvário.
Às vezes e tão sem querer,
Esqueço de não me esquecer.

XXXIV

A noite me cumprimenta sorrindo
E diz que nela o horror se esconde.
Ri um meio trago de cigarro
Engasgado na neblina do tempo.
Me olha dos pés à cabeça
Que então explode num súbito medo.
A lua atormentada se esconde
Dos lobos e dos homens que uivam.
Carrego em meu bolso um convite
À negra noite cheia de estrelas.
Meus olhos ardem de dor e fumaça
Meus pés doloridos e trôpegos
Dançam um balé de almas cansadas.
Uma criança ri na sacada
Outra morre na ruela escura.
A noite acompanha meus passos
Zombando da minha embriaguez;
Me beija dos pés a cabeça
Que então se abre num súbito gozo.

XXXIII

E se eu me tornasse a medusa,
Vinda dos teus pesadelos?
E se eu te levasse à caverna
Onde os gritos não são ouvidos?
Você nadaria até o fim dos tempos,
Para não sangrar ferido,
Para não beber veneno,
Para que as vozes da água
Não te levassem para baixo,
Para o negrume gelado
Das almas presas e velhas,
Que grudariam em teu cabelo
E arrancariam as tuas órbitas,
Para que de lá saíssem
Todas as tuas confissões.
E se eu te levar voando
A algum lugar infeliz,
De onde você jamais voltará? 

XXXII - Rotação

Anoiteço em teu sorriso
E o meu cansaço adormece
Na retórica do teu olhar
Ou em teu silêncio palpitante.

O teu cheiro me invade a alma,
Louco por me seduzir;
Mas tu não podes sequer tocar-me,
Pois és quase tudo o que sou,
E tudo também que me falta.

Ainda assim, embora triste, te procuro,
Para adormecer o mal que em mim reside,
E devolver a ti todas as lágrimas derramadas
Do alto destes teus mares onipresentes;

Procuro-te para aliviar o nada,
O tédio malquisto que assombra a minha vida.
E anoiteço em teu sorriso;
Assim, quando tu me deixares,
Poderei de novo amanhecer.

XXXI


Sentimento ilhado, mordido, pensado.
Como uma faísca pequena no espaço
E um abraço ainda quer se formar,
Com gosto de saudade, gosto de abandono,
Segundos fechados, mentiras devassas.
Pensamento revirado, atrevido, sentido.
No começo do tempo ainda dorme o espaço.
Arrancado dos braços de quem ninguém vê.
No começo de tudo ainda resta você.

XXX - O Teatro dos Elementos

Um corpo estranho, uma voz que chama
Sempre suave demais.
Um sonho de dor e presença, calor e atração.

Mil vultos me cercam, rindo em silêncio

E aplaudindo de pé esse mórbido engano.

Uma máscara apenas; meu corpo é nu,
E agitado, sob uma luz bruxuleante
Treme de prazer e alienação.

Há um fio de sangue enrolado em meu peito
Frágil demais, simples demais,
Meus olhos vidrados só fitam o medo,
E o riso, sempre estampado
Limpo demais, triste demais.

A música agora fere os meus tímpanos
Mas eu continuo a dançar;
Um balé esquisito de pernas,
Beijos e lágrimas.

No teatro vazio coberto de espelhos,
Um mar de rostos sem inspiração;

Há prisões maiores que o desespero:
Meu nome é Água, minha alma é Fogo,
Minha vida é Terra, minha sina é Ar.