XXXVII

Preciso de uma paz que não existe.
Preciso afastar-me dos olhos negros
Que me espreitam através do espelho
Quebrado.

A face da morte me deleita
E o fio da incerteza me conduz
Através da navalha da noite.

Os sorrisos indecifráveis que me estragam
As cores duma rotina contraproducente

Enervam-me com tais doces mentiras
E afogam meu tempo e meus lábios
Com o gosto metálico de um coração
Enferrujado.

Posted by Cindi Christie | às 19:09 | 0 comentários

XXXVI

Se eu soubesse o que fazer
Com tanta e tamanha indecisão
Ainda assim nada faria
Pois o querer ainda me governa
E minha alma, sempre anárquica
Não foge nem luta,
Cala.

Se eu pudesse decidir
Que fazer com meus devaneios
Ainda assim nada teria
Pois o que é ideia não morre
E em solo infértil de medo
Tampouco nasce.

Posted by Cindi Christie | às 17:42 | 0 comentários

XXXV

Às vezes eu penso em você,
Em suas mãos tão pálidas
Em sua boca cálida,
Penso em você dormindo
A boca entreaberta,
Os sonhos me sorrindo.
Lembro das nossas canções
Lembro dos nossos carinhos,
Penso na juventude, tão distante
Penso em nossos beijos delirantes!
Às vezes você é tão forte!
Me acusa, me abraça, me morde,
Às vezes, eu penso em você;
Lembro do amor inventado
Penso em encontros marcados
Às vezes, você é tão longe!
Seus passos de mim se escondem
No desenrolar dos séculos
No desempenho dos anos,
Penso em você, em seus fracos enganos
Penso em ouvir seu choro
Penso em chorar suas perdas
Às vezes, você me confunde
Penso em nosso passado,quieto, apagado
Talvez seu inferno diário,
Talvez meu destino, calvário.
Às vezes e tão sem querer,
Esqueço de não me esquecer.

Posted by Cindi Christie | às 15:30 | 0 comentários

XXXIV


A noite me cumprimenta sorrindo
E diz que nela o horror se esconde.
Ri um meio trago de cigarro
Engasgado na neblina do tempo.
Me olha dos pés à cabeça
Que então explode num súbito medo.
A lua atormentada se esconde
Dos lobos e dos homens que uivam.
Carrego em meu bolso um convite
À negra noite cheia de estrelas.
Meus olhos ardem de dor e fumaça
Meus pés doloridos e trôpegos
Dançam um balé de almas cansadas.
Uma criança ri na sacada
Outra morre na ruela escura.
A noite acompanha meus passos
Zombando da minha embriaguez;
Me beija dos pés a cabeça
Que então se abre num súbito gozo.

Posted by Cindi Christie | às 11:55 | 0 comentários

XXXIII

E se eu me tornasse a medusa,
Vinda dos teus pesadelos?
E se eu te levasse à caverna
Onde os gritos não são ouvidos?
Você nadaria até o fim dos tempos,
Para não sangrar ferido,
Para não beber veneno,
Para que as vozes da água
Não te levassem para baixo,
Para o negrume gelado
Das almas presas e velhas,
Que grudariam em teu cabelo
E arrancariam as tuas órbitas,
Para que de lá saíssem
Todas as tuas confissões.
E se eu te levar voando
A algum lugar infeliz,
De onde você jamais voltará? 

Posted by Cindi Christie | às 13:44 | 0 comentários

XXXII

Preciso falar sobre o medo
De perder o que não se tem.
Preciso enfrentar o desejo
De adoçar o amargo de alguém.

Preciso entender que o destino
Infinito incapacitante,
No rastro de um vôo clandestino
Me evita e se mantém distante.

Posted by Cindi Christie | às 17:52 | 0 comentários

XXXI



Sentimento ilhado, mordido, pensado.
Como uma faísca pequena no espaço
E um abraço ainda quer se formar,
Com gosto de saudade, gosto de abandono,
Segundos fechados, mentiras devassas.
Pensamento revirado, atrevido, sentido.
No começo do tempo ainda dorme o espaço.
Arrancado dos braços de quem ninguém vê.
No começo de tudo ainda resta você.

Posted by Cindi Christie | às 09:03 | 0 comentários

XXX

Um corpo estranho, uma voz que chama
Sempre suave demais.
Um sonho de dor e presença, calor e atração.

Mil vultos me cercam, rindo em silêncio

E aplaudindo de pé esse mórbido engano.

Uma máscara apenas; meu corpo é nu,
E agitado, sob uma luz bruxuleante
Treme de prazer e alienação.

Há um fio de sangue enrolado em meu peito
Frágil demais, simples demais,
Meus olhos vidrados só fitam o medo,
E o riso, sempre estampado
Limpo demais, triste demais.

A música agora fere os meus tímpanos
Mas eu continuo a dançar;
Um balé esquisito de pernas,
Beijos e lágrimas.

No teatro vazio coberto de espelhos,
Um mar de rostos sem inspiração;

Há prisões maiores que o desespero:
Meu nome é Água, minha alma é Fogo,
Minha vida é Terra, minha sina é Ar.

Posted by Cindi Christie | às 08:59 | 0 comentários

XXIX

Amo com o peito cheio de flores
E com a boca molhada de palavras e lágrimas.

Amo com a força furiosa do sol
E com a poesia dolorida da lua.

Amo de forma tão plena
Com tímidas dúvidas sobre a sequência dos fatos.

Amo e me espalho feito vinho ou sangue
Por frestas e fendas que encontro em qualquer lugar.

Amo tanto e não quero
Cercear o meu sentimento.

Amo tanto e não quero
Me espremer em corações pequenos.

Posted by Cindi Christie | às 11:19 | 0 comentários

XXVIII

Visto que me queira,
Como um sonâmbulo a suspirar
O embalo das visões noturnas
E os olhos de cigana errante.

O soluço antes sensível,
Ferve agora de ingratidão
E o meu prazer infindo se afoga
Onde não existe perdão ou paz.

Estranha solidão me ocorre
Desesperada de satisfação,
Quando no rastro negro da madrugada
O silêncio invade a minha loucura.

Talvez se eu nunca mais tentasse
Mudar assim vil e incoerente,
O mundo aflito então se calasse
Numa admirada compreensão.

Posted by Cindi Christie | às 06:17 | 0 comentários

XXVII

Se num momento qualquer eu pudesse
Arrancar as raízes da insatisfação
Que se arrasta pelas esquinas infinitas
Como olhares malditos de tédio;

Se num instante qualquer eu ousasse
Servir-me a cada bel vontade
Do sumo amargo que outrora bebi;

Subiria então aos sete céus vermelhos
Que expiam cá na Terra suas doces iniquidades

E iria sozinha, perdida e tranquila
Para o mar sem nome onde a morte deságua.

Posted by Cindi Christie | às 20:42 | 0 comentários

XXVI













Trago em meu olhar
A utopia gravada a sangue,
A inocência do desespero,
O sabor amargo da desilusão.

Agrego em meu corpo marcado
A sede pura e insaciável,
A sentença cruel dos injustiçados,
O peso morto da inquietação.

Carrego pela saudade
O calor urgente da independência,
A sincera fuga da miséria eterna,
O mistério maldito da transformação.

Liberto pela tempestade
Os demônios revoltos da solidão,
A magia inútil da realidade,
E os vícios fúteis do meu coração.

Posted by Cindi Christie | às 17:22 | 0 comentários

XXV

Quando em meus olhos fendidos
Vier derramar-se o teu pranto,
Onde do silêncio em brumas
Hei de surgir, infalível;
Quando em infando sabor
Desmanchar-se a tua carne selvagem;
Quando teus lábios famintos
Calarem submissos,
Eu hei de lembrar esta noite,
Donde surgem negros olhares,
E gritos medonhos a selar os lábios,
Que outrora foram teus.
Eu hei de lembrar que o silêncio
Foi-me imposto feito brasa viva,
E em cinzas, frias palavras
Eu hei de te transformar.

Posted by Cindi Christie | às 17:36 | 0 comentários

XXIV

O vermelho desbotado das minhas unhas 
Destoa do dia cinzento lá fora. 
A chuva cai como pedra
Latejando em minha cabeça, 
Martelando idéias há muito esquecidas. 
Hoje você foi embora. 
Partiu sem ao menos olhar pra mim, 
Sem pedir um último beijo, 
Sem implorar para que eu te encontre,  
Como tanto fiz no passado.  
A música que ouço soa triste e vazia, 
A minha consciência um pouco pesada, 
Talvez, não mais do que eu, 
Do que a preguiça que me arrasta 
E me faz querer dormir. 
Penso em me afogar em tua saliva, 
No beijo que me negas, 
No sexo que não provei. 
Começo a esquecer o teu cheiro, 
Mas a chuva me lembra de cada palavra, 
Me lembra das noites em claro e do teu rosto, 
Mentira que corrói minha alma,
Que me faz acreditar na tua dor, 
Tão irmã da minha! Teus lábios vermelhos, 
Macios, sempre fiéis aos meus. 
Quase dormindo, ouço a chuva
Lavando aquele dia cinzento, 
lavando as feridas que o banho, 
Tão demorado, não lavou. 

Posted by Cindi Christie | às 11:41 | 0 comentários

XXIII

Toda noite ela brinca de me ver.
Desce madrugada adentro e me beija;
Poeira noturna, teu choro, tuas asas.

Toda noite meu sonho é azul
E o teu perfume mordisca minha alma,
Me incendeia o peito,queimando tristezas

Toda noite ela brinca de me ver
E sopra friezas ao meu ouvido.
Teus soluços tranqüilos -

Quebram feito maré selvagem,
Madeira nua, talhando em minha pele
Os contornos da tua inocência.

Posted by Cindi Christie | às 16:22 | 0 comentários

XXII

Gosto quando assim em segredo
Conta-me tuas verdades lavadas
Em lágrimas de cumplicidade

Gosto quando entre os meus dedos
Entrelaça os teus cheios de história

Gosto quando me vês crescendo
Como a lua que me enamora
E num efêmero momento
Muda de cor, muda de fase

Muda de satisfação
Gosto quando me alimenta
O corpo, a vida e a alma.

Posted by Cindi Christie | às 14:26 | 0 comentários

XXI

A saudade consome o meu peito
De dores infames e amargos ardis.
Apesar da intenção honesta
E da pura vontade de desolação.
Consome os meus olhos cerrados,
Num sonho intranquilo de reencontro;
Como noutras tantas vidas,
Perdidas em prantos e desilusões.
Saudades tuas, que já não toco,
Já não imagino nas noites sem lua.
Só compro o sorriso de tanto passado,
Num surto sem nexo de recordações.
A saudade importuna os meus lábios
Aflitos, calados de submissão,
Ao pagar de imagens as cruéis vitórias
E os momentos perdidos na maré do tempo.
O perdão se apagou do meu triste desejo,
Senhor do pecado e da imaginação.
Sua alma corrompe a saudade vazia
Que invade os sonhos da minha rotina
Fatigada de vontades negadas,
E absolutas contradições.
A saudade consome o meu equilíbrio,
O gatilho puxado, a lembrança sutil.
Consome a memória de valores findos
E o riso assaltado na contramão.
A saudade consome sem intervalos,
Sem avisos, pedidos; na solidão.
A saudade consome o meu peito marcado,
Apesar do presente, além da paixão.



Posted by Cindi Christie | às 15:43 | 0 comentários

XX














Entre os cacos da sobrevivência
A dor oculta espasmos de prazer,
Inconscientes, ardentes,
De insanidade cruel e prevista.

Os meus sonhos embaralham a realidade
E ainda sinto na boca o gosto da perda,
Sem sentido,

Os teus olhos amargam a minha leveza
E em qualquer lugar me vigiam,
Agarrando os reflexos desta loucura
Cuja aura bêbada me entontece.

Posted by Cindi Christie | às 15:39 | 0 comentários

XIX

Por onde tens andado?
Nesse vasto mundo que triste nos soa;
Aflita e tão tua, cá te espero
Salgando de mágoas teu doce desejo.

Por onde, nesse vasto mundo
Tens andado, sonho meu?
Não sabes que cá te espero?
Aflita e tão tua, tão tua!

Ainda então, vejo em cada detalhe
Teu rosto velado, colado ao meu
E sinto sofrida em cada afago,
Teus lábios ferinos grudados aos meus.

Posted by Cindi Christie | às 16:03 | 0 comentários

XVIII

A minha língua arde com sabores quentes
O meu cérebro pulsa, implora. 
O silêncio me domina. 
As moscas em minha boca fingem querer fugir
Mas voltam atordoadas para esse cemitério 
De verdades não ditas e mentiras escancaradas. 

Mergulho naquele lago, 
Para acabar com a secura que me consome
Para umedecer os meus olhos enrugados
E pálidos, que tanto se contorcem 
Nessas noites quentes e intermináveis.  

Meu cérebro ainda sonha com agulhas e machados, 
Com fios de amor escarlate escorrendo 
Entre os dedos, entre os lábios, 
Entre o sexo profano e inefável.

A minha voz se cala ao som da monotonia
Enquanto o vento uivando na janela 
Chama o meu nome, venda os meus olhos 
E abraça o meu corpo inerte que cai.


Posted by Cindi Christie | às 15:39 | 0 comentários