XXIII - Fada

Toda noite ela brinca de me ver.
Desce madrugada adentro e me beija;
Poeira noturna, teu choro, tuas asas.


Toda noite meu sonho é azul
E o teu perfume mordisca minha alma,
Me incendeia o peito,queimando tristezas

Toda noite ela brinca de me ver
E sopra friezas ao meu ouvido.
Teus soluços tranqüilos -

Quebram feito maré selvagem,
Madeira nua, talhando em minha pele
Os contornos da tua inocência.

XXII - O Sabor da Maturidade

Gosto quando assim em segredo
Conta-me tuas verdades lavadas
Em lágrimas de cumplicidade

Gosto quando entre os meus dedos
Entrelaça os teus cheios de história

Gosto quando me vês crescendo
Como a lua que me enamora
E num efêmero momento
Muda de cor, muda de fase

Muda de satisfação
Gosto quando me alimenta
O corpo, a vida e a alma.

XXI

A saudade consome o meu peito
De dores infames e amargos ardis.
Apesar da intenção honesta
E da pura vontade de desolação.
Consome os meus olhos cerrados,
Num sonho intranquilo de reencontro;
Como noutras tantas vidas,
Perdidas em prantos e desilusões.
Saudades tuas, que já não toco,
Já não imagino nas noites sem lua.
Só compro o sorriso de tanto passado,
Num surto sem nexo de recordações.
A saudade importuna os meus lábios
Aflitos, calados de submissão,
Ao pagar de imagens as cruéis vitórias
E os momentos perdidos na maré do tempo.
O perdão se apagou do meu triste desejo,
Senhor do pecado e da imaginação.
Sua alma corrompe a saudade vazia
Que invade os sonhos da minha rotina
Fatigada de vontades negadas,
E absolutas contradições.
A saudade consome o meu equilíbrio,
O gatilho puxado, a lembrança sutil.
Consome a memória de valores findos
E o riso assaltado na contramão.
A saudade consome sem intervalos,
Sem avisos, pedidos; na solidão.
A saudade consome o meu peito marcado,
Apesar do presente, além da paixão.

XX

Entre os cacos da sobrevivência
A dor oculta espasmos de prazer,
Inconscientes, ardentes,
De insanidade cruel e prevista.

Os meus sonhos embaralham a realidade

E ainda sinto na boca o gosto da perda,
Sem sentido,

Os teus olhos amargam a minha leveza

E em qualquer lugar me vigiam,
Agarrando os reflexos desta loucura
Cuja aura bêbada me entontece.

XIX - Das Distâncias

Por onde tens andado?
Nesse vasto mundo que triste nos soa;
Aflita e tão tua, cá te espero
Salgando de mágoas teu doce desejo.

Por onde, nesse vasto mundo
Tens andado, sonho meu?
Não sabes que cá te espero?
Aflita e tão tua, tão tua!

Ainda então, vejo em cada detalhe
Teu rosto velado, colado ao meu
E sinto sofrida em cada afago,
Teus lábios ferinos grudados aos meus.

XVIII - Amor Escarlate

A minha língua arde com sabores quentes
O meu cérebro pulsa, implora. 
O silêncio me domina. 
As moscas em minha boca fingem querer fugir
Mas voltam atordoadas para esse cemitério 
De verdades não ditas e mentiras escancaradas. 

Mergulho naquele lago, 
Para acabar com a secura que me consome
Para umedecer os meus olhos enrugados
E pálidos, que tanto se contorcem
Nessas noites quentes e intermináveis.

Meu cérebro ainda sonha com agulhas e machados, 
Com fios de amor escarlate escorrendo 
Entre os dedos, entre os lábios,
Entre o sexo, profano e inefável.

A minha voz se cala ao som da monotonia
Enquanto o vento uivando na janela 
Chama o meu nome, venda os meus olhos 
E abraça o meu corpo inerte que cai.

XVII - Afogada


A voz fria da morte
Sussurra em meu ouvido,
O mundo grita
E a minha cabeça explode.

Sonho afogar-me em areia
Com uma criança nos braços
Sem guerra, sem nome

O azul do oceano me espreita
Me traga feito fumaça
E eu muda, inane
Submersa.

O mundo grita,
Mas em mim só angústia
E silêncio.

XVI - Sobre Tudo e Todas as Coisas

Já se foi a minha vontade, findou-se a inspiração;
Passo dias pensando um verso, camuflado em qualquer paixão.

Só de dor e teimosia, o dia amanhece sem fim;
Passo horas tecendo um verso, que parece esconder-se de mim.

Os olhos mentem o medo, tal malévolo algoz;
E a serpente, ameaça sonsa, me rouba o verso e a voz.

XV

Preciso falar sobre o medo
De perder o que não se tem.
Preciso enfrentar o desejo
De adoçar o amargo de alguém.

Preciso entender que o destino
Infinito incapacitante,
No rastro de um vôo clandestino
Me evita e se mantém distante.

XIV


Vens dançando feito concha aos meus pés
E os meus olhos secos desenham segredos
Neste teu corpo profano;
As tuas asas, feito pétalas desabrochadas,
E a tua sina, mal-me-quer;
Vens dançando, escondendo feito pranto o teu olhar,
Vens sorrindo aos meus pés para se encontrar;
Os teus passos, feito traços, limitam o meu caminho,
E o teu riso nos meus sonhos, feito a vida
Ainda que triste, perdida,
Vens dançando feito chama aos meu pés.
O teu fogo me devora, feito mentira sincera
Que engana a própria sorte e reverbera
Em todos os puros e lindos sentidos.
Vens dançando feito areia aos meus pés,
Confundindo os meus desejos e caindo,
Feito a morte podre e quente nos sorrindo;
Vens dançando feito sombra aos meus pés.

XIII

Teus olhos famintos hoje celebram
Outonos furtivos que te afastam de mim
E por tanto afastarem, mais te aproximam
Dando voltas infinitas no oceano
Desconhecido e inexorável que é o nosso destino.
Os meus olhos famintos querem encontrar os teus
Para que num abraço de pupilas dilatadas
Saciemos a fome de outras estações.

XII


















Um dia esta boca, como quem nada espera,
Há de engolir-te inteiro, espinho e tudo.
Um dia teu corpo será o veneno,
E o mundo, pequeno silêncio,
Nostalgia a digerir-te, úmido e frio.
Como a saliva e outros tantos remédios,
De sangue teu, abocanhando a dor
Que nos cozinha à fogo lento, por vezes
E por vezes mesmo, me devora vivo.
Um dia teu pranto será esquecido,
E como quem nada teme, tua carne doce
E insensível, há de abrir-se para o eterno sono.
Um dia, em breve demora, esta boca
Há de amordaçar a tua, rígida e fria,
E a vida, cruel predadora,
Nostalgia a rir-se de ti, infando alimento.

XI


O teu vestido me olhava.
O teu vestido me olhava e ria.
A tua boca me dizia, em silêncio,
Tudo o que eu queria ouvir
- Sou tua!

Na tua cama eu rolava,
Da tua fonte, bebia.
O teu silêncio me contava, em verso,
O risco de te possuir.

E como fui então parar,
Na sombra do teu sofrimento?
Enquanto tua boca, calada, me olhava,
Tua boca me olhava e ria.

X

Então você vem, me envolve e tortura aquelas velhas cicatrizes, até que se abram novamente em chagas profundas demais para serem sentidas. Então você vem, me excita, até ouvir os gritos que insistem em formar seu nome no mistério dessa noite quente. Então você vem, e atrai toda a força do medo desafiado, impelido e escondido. Quão sujo você ousa ser? Dentro ou fora de mim, no mesmo ritmo do sangue pulsante escorrendo das minhas feridas. Então você vem e ri. Ri dos meus pesadelos, da minha fraqueza em admitir a exaustão. Ri um riso engasgado, um soluço. Então você vem, com os velhos olhos de serpente, cansados e castanhos, como o pecado parece ser. A morte sopra palavras frias em meu ouvido, então você vem.

IX

É feliz aquele que é uno?
Ou aquele que aceita sua dualidade?

E que dizer daqueles que, tímidos,
Encobrem mais faces que um dado viciado?

É sensato aquele que chora?
Ou aquele que sangra para saber que sente?

E que pensar daqueles que, mórbidos,
Saboreiam suas doces lágrimas de sangue?

VIII

Tua cara estranha me olha,
Teu sangue me enoja,
Serpente infeliz;
Tua boca me chama
Sem palavra,
Num sussurro tão baixo,
Só sentido;
Sem sentido,
Quase em transe
ESCUTO  o pulsar do teu sangue
Que me enoja, ainda,
Embora não sem dor
Eu possa já provar-te
Sem arder em fogo
A pele que te abomina.
Tua língua jaz morta,
Não mais desfere golpes
Ferinos
A quem, leviana,
Ardentemente a deseja.

VII - O Sonho de Um Homem Ridículo


Em meu sonho real e latente
A verdade se revelou;
A vida urgia sob o sol nascente,
Mas à noite tudo mudou.

O que era teto de areia,
Com um sopro desmoronou;
Mar adentro a bela sereia,
Cantava seus versos de dor.

Antes vibravam paz,
E a nudez era só beleza.
Viveram os anos tais
Como filhos da gentileza.

Mas um dia o homem voltou,
Usando uma máscara rubra,
A verdade enfim cessou,
A beleza virou luxúria.

Subiu aos céus uma torre
De gente, barulho e calor;
Senti em meu sonho a morte,
A morte de um sonhador.

VI

Um beijo de amor escarlate
Pulsando nos meus lábios frios,
E eu, sedenta,
Em tuas mentiras vou me afogar.
Tua pele branca desfaz-se ao meu toque,
Teus olhos, da cor da tristeza
Parecem me observar,
Entre todas as noites, todos os sonhos,
Entre o roçar dos teus cabelos
No meu peito,
E a curva pálida, pérfida
Do teu pescoço nu.
Quanto silêncio já não nos coube,
De veneno sincero,
De morte indolor?
Quantos perfumes já me enganaram,
Quando o corpo mentia
E o medo aflorava?
Sonhei outra vez,
Tua alma caindo no abraço profano
Do meu coração.

V

Como pode o teu rosto esvair-se assim,
Um verme neste meu túmulo de faces ocultas?
Como pode o silêncio multiplicar-se,
Ardendo em memórias ensurdecedoras
A teu respeito;
Como pode a imagem de um sonho
Assassinar friamente a realidade
E o teu apego tão infantil
Calar o infame mistério das horas?
Como, longe deste mundo cansado e febril,
Pode a tua língua vestir a minha
Com a frieza da noite que nos envolve?
Pode o teu corpo abraçar o meu,
Despido da involuntariedade,
E no eterno segundo em que te olho,
Pode o teu cheiro perder-se
Em mares engasgados de sonhos
E desejos irreparáveis.

IV

Tão doces as memórias
De momentos que nunca vivi;
Preso num cenário sem sentido
Que me assombra em silêncio e torpor,

Nem mesmo por infindáveis segundos
Da loucura esquecida me descuido,
Pois que não há terapia ou remédio
No mundo, para esse mal

Que consome não o meu corpo,
Coberto de escudo e mágoa,
Mas a minha consciência
Cansada, doente e fugaz;

Ela, que se esconde quando mais preciso,
Quando nada de doce me resta
Senão a rosa, ferida e usada
Pelos espinhos que alimentou.

III














Agora além daquelas promessas
Ouço o trovejar faminto da alvorada
Caminhando sob a névoa
Mais densa do que louca
Mais nua do que tua ou minha;
E a noite se abre como um sussurro
Rodopiando de incertezas
Embaralhando as verdades vazias
Para dentro do meu firmamento.
As tagarelices do mundo
Cantando o silêncio que tanto me fala,
E a boca quente dessa madrugada
Me empurra as luzes garganta abaixo.
Minha cabeça dolorida e insone
Verte palavras pelas pupilas
Dilatadas, como em noite de lua cheia,
Essa mesma lua que me observa
E grita meu nome, numa voz de sereia
Canto alado que só eu escuto!
Vira o rosto agora:
Outro tapa lhe cega, e as flores
Fitam o seu desespero, julgam a sua vontade
Lá de cima da prateleira.
A cor daquelas promessas,
E o gosto do teu olhar castanho;
Verdade vazia, mais nua do que nossa
Nessa noite que era só minha.

II

Quase disfarçado
Um pouco despercebido
Um detalhe.
Um estorvo.

Quase imaginado
Um tanto quanto querido
Um suspiro.
Uma mentira.

Quase sempre perdido
Um monte de coisa inexata
Um labirinto.
Uma cilada.

I - Calvário

E assim lento,
Assim profundo,
Como quem nada espera,
Eu te arrancaria desse espelho de medo
E te traria ao mundo,
Com corpo, alma e veneno.
E esses teus olhos famintos
Exigiriam de mim uma gota de sangue
A cada novo dia.
E assim servente,
Assim fiel,
Eu rasgaria minha frágil pele
Para te alimentar,
Assim passado,
Como quando te vi,
Quando nós competimos p
ela primeira vez.
E lento,
E assim envolto em minhas convulsões,
Eu te carregaria
Como a uma cruz sangrenta
Da qual não ouso me libertar.