XLIV

Cada corpo parece um pedaço
E cada pedaço, metade de mim.
Sujeito sem sexo,
Sem rima, sem nexo.

Um pobre ensaio
Da reflexa arte de manipular,
Câmara que se abre sem segredos,
Para a metade mais cálida
Do meu infinito.

Noites de tormentas reviradas
Num silêncio tão absoluto,
Que me confunde o pensamento.

Abertos os olhos, enxergam o nada
O fogo que consome a negra luz
Da solidão.

XLIII

Estando tão perto e tão longe
Imensa no teu desconforto
Acordo no mundo que inventamos

Teu corpo pulsa com o meu
Teu beijo me atira num mar de                   
excentricidade

Um segundo de tola certeza
E uma vida de radiante
irresponsabilidade

XLII - Letal

Metal frio contra a pele quente
Quero me rasgar por dentro

Acendo a chama da incerteza
Que arde e me queima por dentro

Implacável.
A implosão é linda
E inevitável.

XLI

Não é perda de tempo
Refletir sobre os teus olhos
Imensos
No meu quadro imaginário

Trocaria todos os dias
Pela chance de morrer te olhando
De viver olhando
Esses olhos de mar
Profundos e onipresentes.

Não é tão sem sentido
Desejar teu afeto ou afago
E sonhar com teu jeito
Intenso
No meu quarto imaginado

Não é forma nem caos
Teu sopro em meu ouvido
Teu beijo em meu umbigo
Teu frio em meu calor.

Trocaria todos os laços
Pela chance de te viver.

XL

Estive pensando em todas as pessoas
Que cruzam o nosso caminho 
E em como cada um de nós
É alguém que marca um destino
Que não é seu.

Pensei sobre instantes efêmeros
E sobre oníricas conversas
Que ficarão guardadas
Com ternura e afeto
No labirinto da memória.

Pensei nos momentos difíceis
Os que passaram e os que virão.

Desfiz os nós da ansiedade
E sonhei com calma compreensão.

XXXIX - Pretérito do Infinitivo

Coexistir, construir, inflamar-se
Assustar, estranhar, entranhar-se
Perceber, convergir, ler amor
Contemplar, iludir, sentir dor
Duvidar, atirar, expandir-se
Insistir, perecer, destruir-se
Abrigar, remover, condoer
Evocar, suspirar, aprender
Resolver, perdoar, humilhar-se
Engolir, aceitar, lamentar-se
Assentir, permitir, entender
Amar, re-amar e perder.

XXXVIII


Sentada em frente ao mar
Devaneios sobre monogamia
A cerveja gelada no copo
E as palavras voando soltas
Nas asas de uma menina.

Sentada fumando um cigarro
Metafísico e metafórico
Tragando o desejo de voar
Como as palavras;
Nas asas de uma menina.

O sol se pondo no mar
Delírios sobre sinceridade
O copo vazio na mesa
E o desejo voando solto
Nas asas de uma menina.

XXXVII

Preciso de uma paz que não existe.
Preciso afastar-me dos olhos negros
Que me espreitam através do espelho
Quebrado.

A face da morte me deleita
E o fio da incerteza me conduz
Através da navalha da noite.

Os sorrisos indecifráveis que me estragam
As cores de uma rotina contraproducente

Enervam-me com tais doces mentiras
E afogam meu tempo e meus lábios
Com o gosto metálico de um coração
Enferrujado.

XXXVI

Se eu soubesse o que fazer
Com tanta e tamanha indecisão
Ainda assim nada faria
Pois o querer ainda me governa
E minha alma, sempre anárquica
Não foge nem cala; luta.

Se eu pudesse decidir
Que fazer com meus devaneios
Ainda assim nada teria
Pois o que é ideia não morre
E em solo infértil de medo
Tampouco nasce.

XXXV - Pra Você Dar o Nome

Às vezes eu penso em você,
Em suas mãos tão pálidas
Em sua boca cálida,
Penso em você dormindo
A boca entreaberta,
Os sonhos me sorrindo.
Lembro das nossas canções
Lembro dos nossos carinhos,
Penso na juventude, tão distante
Penso em nossos beijos delirantes!
Às vezes você é tão forte!
Me acusa, me abraça, me morde,
Às vezes, eu penso em você;
Lembro do amor inventado
Penso em encontros marcados
Às vezes, você é tão longe!
Seus passos de mim se escondem
No desenrolar dos séculos
No desempenho dos anos,
Penso em você, em seus fracos enganos
Penso em ouvir seu choro
Penso em chorar suas perdas
Às vezes, você me confunde
Penso em nosso passado,quieto, apagado
Talvez seu inferno diário,
Talvez meu destino, calvário.
Às vezes e tão sem querer,
Esqueço de não me esquecer.

XXXIV

A noite me cumprimenta sorrindo
E diz que nela o horror se esconde.
Ri um meio trago de cigarro
Engasgado na neblina do tempo.
Me olha dos pés à cabeça
Que então explode num súbito medo.
A lua atormentada se esconde
Dos lobos e dos homens que uivam.
Carrego em meu bolso um convite
À negra noite cheia de estrelas.
Meus olhos ardem de dor e fumaça
Meus pés doloridos e trôpegos
Dançam um balé de almas cansadas.
Uma criança ri na sacada
Outra morre na ruela escura.
A noite acompanha meus passos
Zombando da minha embriaguez;
Me beija dos pés a cabeça
Que então se abre num súbito gozo.