XIV


Vens dançando feito concha aos meus pés
E os meus olhos secos desenham segredos
Neste teu corpo profano;
As tuas asas, feito pétalas desabrochadas,
E a tua sina, mal-me-quer;
Vens dançando, escondendo feito pranto o teu olhar,
Vens sorrindo aos meus pés para se encontrar;
Os teus passos, feito traços, limitam o meu caminho,
E o teu riso nos meus sonhos, feito a vida
Ainda que triste, perdida,
Vens dançando feito chama aos meu pés.
O teu fogo me devora, feito mentira sincera
Que engana a própria sorte e reverbera
Em todos os puros e lindos sentidos.
Vens dançando feito areia aos meus pés,
Confundindo os meus desejos e caindo,
Feito a morte podre e quente nos sorrindo;
Vens dançando feito sombra aos meus pés.

XIII

Teus olhos famintos hoje celebram
Outonos furtivos que te afastam de mim
E por tanto afastarem, mais te aproximam
Dando voltas infinitas no oceano
Desconhecido e inexorável que é o nosso destino.
Os meus olhos famintos querem encontrar os teus
Para que num abraço de pupilas dilatadas
Saciemos a fome de outras estações.

XII


















Um dia esta boca, como quem nada espera,
Há de engolir-te inteiro, espinho e tudo.
Um dia teu corpo será o veneno,
E o mundo, pequeno silêncio,
Nostalgia a digerir-te, úmido e frio.
Como a saliva e outros tantos remédios,
De sangue teu, abocanhando a dor
Que nos cozinha à fogo lento, por vezes
E por vezes mesmo, me devora vivo.
Um dia teu pranto será esquecido,
E como quem nada teme, tua carne doce
E insensível, há de abrir-se para o eterno sono.
Um dia, em breve demora, esta boca
Há de amordaçar a tua, rígida e fria,
E a vida, cruel predadora,
Nostalgia a rir-se de ti, infando alimento.

XI


O teu vestido me olhava.
O teu vestido me olhava e ria.
A tua boca me dizia, em silêncio,
Tudo o que eu queria ouvir
- Sou tua!

Na tua cama eu rolava,
Da tua fonte, bebia.
O teu silêncio me contava, em verso,
O risco de te possuir.

E como fui então parar,
Na sombra do teu sofrimento?
Enquanto tua boca, calada, me olhava,
Tua boca me olhava e ria.

X

Então você vem, me envolve e tortura aquelas velhas cicatrizes, até que se abram novamente em chagas profundas demais para serem sentidas. Então você vem, me excita, até ouvir os gritos que insistem em formar seu nome no mistério dessa noite quente. Então você vem, e atrai toda a força do medo desafiado, impelido e escondido. Quão sujo você ousa ser? Dentro ou fora de mim, no mesmo ritmo do sangue pulsante escorrendo das minhas feridas. Então você vem e ri. Ri dos meus pesadelos, da minha fraqueza em admitir a exaustão. Ri um riso engasgado, um soluço. Então você vem, com os velhos olhos de serpente, cansados e castanhos, como o pecado parece ser. A morte sopra palavras frias em meu ouvido, então você vem.

IX

É feliz aquele que é uno?
Ou aquele que aceita sua dualidade?

E que dizer daqueles que, tímidos,
Encobrem mais faces que um dado viciado?

É sensato aquele que chora?
Ou aquele que sangra para saber que sente?

E que pensar daqueles que, mórbidos,
Saboreiam suas doces lágrimas de sangue?

VIII

Tua cara estranha me olha,
Teu sangue me enoja,
Serpente infeliz;
Tua boca me chama
Sem palavra,
Num sussurro tão baixo,
Só sentido;
Sem sentido,
Quase em transe
ESCUTO  o pulsar do teu sangue
Que me enoja, ainda,
Embora não sem dor
Eu possa já provar-te
Sem arder em fogo
A pele que te abomina.
Tua língua jaz morta,
Não mais desfere golpes
Ferinos
A quem, leviana,
Ardentemente a deseja.