XXXI


Sentimento ilhado, mordido, pensado.
Como uma faísca pequena no espaço
E um abraço ainda quer se formar,
Com gosto de saudade, gosto de abandono,
Segundos fechados, mentiras devassas.
Pensamento revirado, atrevido, sentido.
No começo do tempo ainda dorme o espaço.
Arrancado dos braços de quem ninguém vê.
No começo de tudo ainda resta você.

XXX - O Teatro dos Elementos

Um corpo estranho, uma voz que chama
Sempre suave demais.
Um sonho de dor e presença, calor e atração.

Mil vultos me cercam, rindo em silêncio

E aplaudindo de pé esse mórbido engano.

Uma máscara apenas; meu corpo é nu,
E agitado, sob uma luz bruxuleante
Treme de prazer e alienação.

Há um fio de sangue enrolado em meu peito
Frágil demais, simples demais,
Meus olhos vidrados só fitam o medo,
E o riso, sempre estampado
Limpo demais, triste demais.

A música agora fere os meus tímpanos
Mas eu continuo a dançar;
Um balé esquisito de pernas,
Beijos e lágrimas.

No teatro vazio coberto de espelhos,
Um mar de rostos sem inspiração;

Há prisões maiores que o desespero:
Meu nome é Água, minha alma é Fogo,
Minha vida é Terra, minha sina é Ar.