VII - O Sonho de Um Homem Ridículo


Em meu sonho real e latente
A verdade se revelou;
A vida urgia sob o sol nascente,
Mas à noite tudo mudou.

O que era teto de areia,
Com um sopro desmoronou;
Mar adentro a bela sereia,
Cantava seus versos de dor.

Antes vibravam paz,
E a nudez era só beleza.
Viveram os anos tais
Como filhos da gentileza.

Mas um dia o homem voltou,
Usando uma máscara rubra,
A verdade enfim cessou,
A beleza virou luxúria.

Subiu aos céus uma torre
De gente, barulho e calor;
Senti em meu sonho a morte,
A morte de um sonhador.

VI

Um beijo de amor escarlate
Pulsando nos meus lábios frios,
E eu, sedenta,
Em tuas mentiras vou me afogar.
Tua pele branca desfaz-se ao meu toque,
Teus olhos, da cor da tristeza
Parecem me observar,
Entre todas as noites, todos os sonhos,
Entre o roçar dos teus cabelos
No meu peito,
E a curva pálida, pérfida
Do teu pescoço nu.
Quanto silêncio já não nos coube,
De veneno sincero,
De morte indolor?
Quantos perfumes já me enganaram,
Quando o corpo mentia
E o medo aflorava?
Sonhei outra vez,
Tua alma caindo no abraço profano
Do meu coração.

V

Como pode o teu rosto esvair-se assim,
Um verme neste meu túmulo de faces ocultas?
Como pode o silêncio multiplicar-se,
Ardendo em memórias ensurdecedoras
A teu respeito;
Como pode a imagem de um sonho
Assassinar friamente a realidade
E o teu apego tão infantil
Calar o infame mistério das horas?
Como, longe deste mundo cansado e febril,
Pode a tua língua vestir a minha
Com a frieza da noite que nos envolve?
Pode o teu corpo abraçar o meu,
Despido da involuntariedade,
E no eterno segundo em que te olho,
Pode o teu cheiro perder-se
Em mares engasgados de sonhos
E desejos irreparáveis.

IV

Tão doces as memórias
De momentos que nunca vivi;
Preso num cenário sem sentido
Que me assombra em silêncio e torpor,

Nem mesmo por infindáveis segundos
Da loucura esquecida me descuido,
Pois que não há terapia ou remédio
No mundo, para esse mal

Que consome não o meu corpo,
Coberto de escudo e mágoa,
Mas a minha consciência
Cansada, doente e fugaz;

Ela, que se esconde quando mais preciso,
Quando nada de doce me resta
Senão a rosa, ferida e usada
Pelos espinhos que alimentou.

III














Agora além daquelas promessas
Ouço o trovejar faminto da alvorada
Caminhando sob a névoa
Mais densa do que louca
Mais nua do que tua ou minha;
E a noite se abre como um sussurro
Rodopiando de incertezas
Embaralhando as verdades vazias
Para dentro do meu firmamento.
As tagarelices do mundo
Cantando o silêncio que tanto me fala,
E a boca quente dessa madrugada
Me empurra as luzes garganta abaixo.
Minha cabeça dolorida e insone
Verte palavras pelas pupilas
Dilatadas, como em noite de lua cheia,
Essa mesma lua que me observa
E grita meu nome, numa voz de sereia
Canto alado que só eu escuto!
Vira o rosto agora:
Outro tapa lhe cega, e as flores
Fitam o seu desespero, julgam a sua vontade
Lá de cima da prateleira.
A cor daquelas promessas,
E o gosto do teu olhar castanho;
Verdade vazia, mais nua do que nossa
Nessa noite que era só minha.

II

Quase disfarçado
Um pouco despercebido
Um detalhe.
Um estorvo.

Quase imaginado
Um tanto quanto querido
Um suspiro.
Uma mentira.

Quase sempre perdido
Um monte de coisa inexata
Um labirinto.
Uma cilada.

I - Calvário

E assim lento,
Assim profundo,
Como quem nada espera,
Eu te arrancaria desse espelho de medo
E te traria ao mundo,
Com corpo, alma e veneno.
E esses teus olhos famintos
Exigiriam de mim uma gota de sangue
A cada novo dia.
E assim servente,
Assim fiel,
Eu rasgaria minha frágil pele
Para te alimentar,
Assim passado,
Como quando te vi,
Quando nós competimos p
ela primeira vez.
E lento,
E assim envolto em minhas convulsões,
Eu te carregaria
Como a uma cruz sangrenta
Da qual não ouso me libertar.