XXXIII

E se eu me tornasse a medusa,
Vinda dos teus pesadelos?
E se eu te levasse à caverna
Onde os gritos não são ouvidos?
Você nadaria até o fim dos tempos,
Para não sangrar ferido,
Para não beber veneno,
Para que as vozes da água
Não te levassem para baixo,
Para o negrume gelado
Das almas presas e velhas,
Que grudariam em teu cabelo
E arrancariam as tuas órbitas,
Para que de lá saíssem
Todas as tuas confissões.
E se eu te levar voando
A algum lugar infeliz,
De onde você jamais voltará? 

XXXII - Rotação

Anoiteço em teu sorriso
E o meu cansaço adormece
Na retórica do teu olhar
Ou em teu silêncio palpitante.

O teu cheiro me invade a alma,
Louco por me seduzir;
Mas tu não podes sequer tocar-me,
Pois és quase tudo o que sou,
E tudo também que me falta.

Ainda assim, embora triste, te procuro,
Para adormecer o mal que em mim reside,
E devolver a ti todas as lágrimas derramadas
Do alto destes teus mares onipresentes;

Procuro-te para aliviar o nada,
O tédio malquisto que assombra a minha vida.
E anoiteço em teu sorriso;
Assim, quando tu me deixares,
Poderei de novo amanhecer.

XXXI


Sentimento ilhado, mordido, pensado.
Como uma faísca pequena no espaço
E um abraço ainda quer se formar,
Com gosto de saudade, gosto de abandono,
Segundos fechados, mentiras devassas.
Pensamento revirado, atrevido, sentido.
No começo do tempo ainda dorme o espaço.
Arrancado dos braços de quem ninguém vê.
No começo de tudo ainda resta você.

XXX - O Teatro dos Elementos

Um corpo estranho, uma voz que chama
Sempre suave demais.
Um sonho de dor e presença, calor e atração.

Mil vultos me cercam, rindo em silêncio

E aplaudindo de pé esse mórbido engano.

Uma máscara apenas; meu corpo é nu,
E agitado, sob uma luz bruxuleante
Treme de prazer e alienação.

Há um fio de sangue enrolado em meu peito
Frágil demais, simples demais,
Meus olhos vidrados só fitam o medo,
E o riso, sempre estampado
Limpo demais, triste demais.

A música agora fere os meus tímpanos
Mas eu continuo a dançar;
Um balé esquisito de pernas,
Beijos e lágrimas.

No teatro vazio coberto de espelhos,
Um mar de rostos sem inspiração;

Há prisões maiores que o desespero:
Meu nome é Água, minha alma é Fogo,
Minha vida é Terra, minha sina é Ar.

XXIX

Amo com o peito cheio de flores
E com a boca molhada de palavras e lágrimas.

Amo com a força furiosa do sol
E com a poesia dolorida da lua.

Amo de forma tão plena
Com tímidas dúvidas sobre a sequência dos fatos.

Amo e me espalho feito vinho ou sangue
Por frestas e fendas que encontro em qualquer lugar.

Amo tanto e não quero
Cercear o meu sentimento.

Amo tanto e não quero
Me espremer em corações pequenos.

XXVIII

Visto que me queira,
Como um sonâmbulo a suspirar
O embalo das visões noturnas
E os olhos de cigana errante.

O soluço antes sensível,
Ferve agora de ingratidão
E o meu prazer infindo se afoga
Onde não existe perdão ou paz.

Estranha solidão me ocorre
Desesperada de satisfação
Quando no rastro negro da madrugada
O silêncio invade a minha loucura.

Talvez se nunca mais tentasse
Mudar assim vil e incoerente,
O mundo aflito então se calasse
Nunca admirada compreensão.

XXVII

Se num momento qualquer eu pudesse
Arrancar as raízes da insatisfação
Que se arrasta pelas esquinas infinitas
Como olhares malditos de tédio;

Se num instante qualquer eu ousasse
Servir-me a cada bel vontade
Do sumo amargo que outrora bebi;

Subiria então aos sete céus vermelhos
Que expiam cá na Terra suas doces iniquidades

E iria sozinha, perdida e tranquila
Para o mar sem nome onde a morte deságua.

XXVI - Liberta Quae Sera Tamen












Trago em meu olhar
A utopia gravada a sangue,
A inocência do desespero,
O sabor amargo da desilusão.

Agrego em meu corpo marcado
A sede pura e insaciável,
A sentença cruel dos injustiçados,
O peso morto da inquietação.

Carrego pela saudade
O calor urgente da independência,
A sincera fuga da miséria eterna,
O mistério maldito da transformação.

Liberto pela tempestade
Os demônios revoltos da solidão,
A magia inútil da realidade
E os vícios fúteis do meu coração.

XXV

Quando em meus olhos fendidos
Vier derramar-se o teu pranto,
Onde do silêncio em brumas
Hei de surgir, infalível;
Quando em infando sabor
Desmanchar-se a tua carne selvagem;
Quando teus lábios famintos
Calarem submissos,
Eu hei de lembrar esta noite,
Donde surgem negros olhares,
E gritos medonhos a selar os lábios,
Que outrora foram teus.
Eu hei de lembrar que o silêncio
Foi-me imposto feito brasa viva,
E em cinzas, frias palavras
Eu hei de te transformar.

XXIV

O vermelho desbotado das minhas unhas 
Destoa do dia cinzento lá fora. 
A chuva cai como pedra
Latejando em minha cabeça, 
Martelando idéias há muito esquecidas. 
Hoje você foi embora. 
Partiu sem ao menos olhar pra mim, 
Sem pedir um último beijo, 
Sem implorar para que eu te encontre,  
Como tanto fiz no passado.  
A música que ouço soa triste e vazia, 
A minha consciência um pouco pesada, 
Talvez, não mais do que eu, 
Do que a preguiça que me arrasta 
E me faz querer dormir. 
Penso em me afogar em tua saliva, 
No beijo que me negas, 
No sexo que não provei. 
Começo a esquecer o teu cheiro, 
Mas a chuva me lembra de cada palavra, 
Me lembra das noites em claro e do teu rosto, 
Mentira que corrói minha alma,
Que me faz acreditar na tua dor, 
Tão irmã da minha! Teus lábios vermelhos, 
Macios, sempre fiéis aos meus. 
Quase dormindo, ouço a chuva
Lavando aquele dia cinzento, 
lavando as feridas que o banho, 
Tão demorado, não lavou.