XXIV

O vermelho desbotado das minhas unhas 
Destoa do dia cinzento lá fora. 
A chuva cai como pedra
Latejando em minha cabeça, 
Martelando idéias há muito esquecidas. 
Hoje você foi embora. 
Partiu sem ao menos olhar pra mim, 
Sem pedir um último beijo, 
Sem implorar para que eu te encontre,  
Como tanto fiz no passado.  
A música que ouço soa triste e vazia, 
A minha consciência um pouco pesada, 
Talvez, não mais do que eu, 
Do que a preguiça que me arrasta 
E me faz querer dormir. 
Penso em me afogar em tua saliva, 
No beijo que me negas, 
No sexo que não provei. 
Começo a esquecer o teu cheiro, 
Mas a chuva me lembra de cada palavra, 
Me lembra das noites em claro e do teu rosto, 
Mentira que corrói minha alma,
Que me faz acreditar na tua dor, 
Tão irmã da minha! Teus lábios vermelhos, 
Macios, sempre fiéis aos meus. 
Quase dormindo, ouço a chuva
Lavando aquele dia cinzento, 
lavando as feridas que o banho, 
Tão demorado, não lavou. 

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